Sabe-se o quão imprescindível é a apresentação de dados, simplesmente porque dão maior sustentação ao argumento... quanto mais firme o argumento, melhor, pois é dele que se assimila a dedução ou conclusão desejada pelo argumentador. Algumas pessoas mal interpretam os dados, por ignorância ou propositalmente, e, por via de consequência, tornam baldado seu próprio argumento. Por isso, sempre que você estiver diante de uma reportagem, cujo argumento se sustenta por dados, fique atento e procure interpretá-los corretamente; não seja ludibriado assim tão facilmente.
Na Gazeta do Povo, Raphael Marchiori é um exemplo de quem utiliza os dados, de forma errônea, para fazer valer o seu posicionamento de que a embriaguez, por si só, é uma causa importante dos acidentes de trânsito em Curitiba. Tão simples os dados, tão elementar o raciocínio, que só posso deduzir que o Raphael o faz propositalmente.
Os dados por ele apresentados, ao invés de sustentarem este posicionamento, vão revelar exatamente o contrário, ou seja, vão mostrar que a embriaguez, sozinha, é uma causa totalmente irrelevante, quando comparada a outras causas de acidentes.
Mas, então (você poderia perguntar), por que os Estados brasileiros só falam na famigerada Lei Seca?...Por que esta Lei (não só inconstitucional, mas exercida de maneira totalmente inconstitucional) está buscando tão eficientemente uma dosagem mínima de álcool, durante as blitzes contempladas de policiais (pois não é fácil encontrá-los quando se precisa deles), identificada em nossos alvéolos pulmonares, em nossa corrente sanguínea, ainda que tenhamos ingerido um copo de cerveja 10 horas antes da fiscalização?
Eu desconfio que seja ganância, ou seja, que os Estados não estejam preocupados com o trânsito. Que estejam realmente interessados no lucro auferido com as multas. Por isso, os dados mal interpretados, nesta reportagem, por isso as causas relevantes de acidentes de trânsito são propositalmente ocultadas, por isso é que tenho visto muitas reportagens cujo texto ardilosamente nos ludibriam, nos levando a acreditar que os Estados estão realmente preocupados com o nosso trânsito.
Primeiramente Raphael afirma que, das 256 colisões, que tiraram a vida de 251 pessoas, apenas 71,5% foram analisadas pelo Comitê de Análise de Acidentes de Trânsito. Ora, este percentual, de 71,5%, representa, em números, 183 acidentes, deixando-se de fora da análise 73 acidentes, que representam nada menos do que 28,5% destas 256 colisões. Agora, meu amigo, pare, respire e imagine se estivéssemos falando dos mais de 1.000.000 de acidentes de trânsito divulgados no site Instituto Avante Brasil. Ora, simplesmente, estar-se-ia desprezando mais de 285.000 acidentes... assim, sem mais nem menos? Não seria porque as causas destes acidentes devem-se justamente à falta de investimento em educação no trânsito, infraestrutura, sinalização etc?
Depois, considerando apenas os 183 acidentes, Raphael afirma que 31% dos acidentes ocorrem devido à embriaguez, ou seja, 56 acidentes. Mas, será que existem acidentes por embriaguez? Ou os acidentes são causados pelos embriagados que se excedem na velocidade, que ultrapassam perigosamente outros veículos ou que desrespeitam a sinalização, quando existe a sinalização?
Entretanto, o próprio Raphael não deixa de frisar que a principal causa dos acidentes é mesmo a velocidade, representando 35% de 183 acidentes, o que implica 64 acidentes de trânsito por excesso de velocidade.
Dessa forma, os 34% restantes (100% - 31% - 35%) representam 63 acidentes que não se devem nem ao excesso de velocidade, muito menos à embriaguez.
A tabela abaixo representa melhor os dados apresentados por Raphael na Gazeta do Povo.
Causas
|
Número de Acidentes
|
Percentual
|
Todas
|
256
|
100%
|
Desprezadas
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63
|
28,5%
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Consideradas
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183
|
71,5%
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Excesso de velocidade
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64
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35%
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Embriaguez associada a outros fatores
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56
|
31%
|
Acontece que, dentre os 56 acidentes cuja causa considerada foi a embriaguez, o próprio autor afirma que existem muitos que se devem não simplesmente à embriaguez, por si só, mas também ao excesso de velocidade.
Mas, o que significa, então, muitos deles?
Ora, em um universo de 56, pode significar a maioria, ou seja, 29 acidentes causados não simplesmente devido à embriaguez, mas, sobretudo, à alta velocidade, restando apenas 27 acidentes que também não são causados necessariamente devido à embriaguez, porque, simplesmente, os acidentes acontecem por negligência, imprudência ou imperícia do motorista embriagado.
Além disso, estes 27 acidentes representam, aproximadamente, um percentual de 15% em relação aos 183 acidentes. Entretanto, em relação aos 256 acidentes que efetivamente aconteceram, significa apenas cerca de 7% , o que implica um índice muito pequeno para se criar uma lei tão rígida, como se criou a Lei Seca, a qual, quando exercida, pune muito mais pessoas que bebem um gole ou outro, e que nem por isso são irresponsáveis, do que os embriagados que realmente assustam a população com suas manobras perigosas.
Diante disso, por que a Lei Seca está sendo tão prestigiada pelos Estados brasileiros?
Para mim, a resposta é óbvia. Para se ter uma ideia, no Rio de Janeiro, até a madrugada da sexta-feira do dia 19 de agosto de 2013, 98.243 condutores foram multados. Ora, com um multa no valor de R$ 1.915,30, o governo do Rio de Janeiro conseguiu arrecadar 98.243 vezes esta quantia, o que dá um total de R$ 188.164.817,90. E, pasmem, o cidadão, independentemente de estar alcoolizado, que se negou a fazer o bafômetro (um direito Constitucional conquistado a troncos e barrancos) foi multado da mesma forma.
Portanto, a resposta óbvia é que a Lei Seca é tão somente mais um meio, disfarçado com o disfarce da legalidade, de se tributar o cidadão desatento. Afinal, é muito mais conveniente arrecadar do que investir em sinalização eletrônica ou infraestrutura das vias públicas.
Enfim, o cidadão desinformado é sempre vítima da ganância de alguns governantes, que sempre estão arrumando um jeitinho de nos tributar, mas que normalmente não devolvem este dinheiro em forma de melhorias públicas... ao contrário, utilizam-no em negócios escusos que só beneficiam seus próprios interesses.